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Fora do Mapa da Fome, Brasil ainda tem 44,8 milhões de pessoas sem renda suficiente para manter alimentação saudável

Fora do Mapa da Fome, Brasil ainda tem 44,8 milhões que não conseguem pagar por alimentação saudável. Getty Images O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) assumiu o terceiro mandato com o “compromisso número 1” de tirar o Brasil do Mapa da Fome, pela segunda vez. A promessa f...

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G1 - Economia Fonte Externa
30 de outubro de 2026 • 15 min de leitura
Fora do Mapa da Fome, Brasil ainda tem 44,8 milhões de pessoas sem renda suficiente para manter alimentação saudável

Fora do Mapa da Fome, Brasil ainda tem 44,8 milhões que não conseguem pagar por alimentação saudável.

Getty Images

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) assumiu o terceiro mandato com o “compromisso número 1” de tirar o Brasil do Mapa da Fome, pela segunda vez. A promessa foi cumprida em julho do ano passado, quando a Organização das Nações Unidas (ONU) anunciou que o país havia deixado o indicador.

Mas o desafio que fica para o seu quarto mandato, não é pequeno: 44,8 milhões de brasileiros — cerca de um quinto da população — ainda não têm renda suficiente para manter uma alimentação saudável, composta por cereais, frutas, verduras, leguminosas e fontes de proteína, nas quantidades recomendadas pela ONU. (veja detalhes abaixo)

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O dado consta do relatório "O Estado da Segurança Alimentar e da Nutrição no Mundo (Sofi)", da agência da ONU para a Alimentação e a Agricultura (FAO), publicado em julho deste ano, com dados até 2025.

Pessoas que não conseguem pagar por uma alimentação saudável.

Arte/g1

A pesquisa também aponta que 20,3 milhões de pessoas enfrentaram insegurança alimentar moderada ou grave entre 2023 e 2025, ou seja, não tiveram acesso regular a alimentos nutritivos em quantidade suficiente para uma vida saudável. Entre 2021 e 2023, esse número era maior: 39,7 milhões.

Onde estão essas pessoas? Nos domicílios chefiados por mulheres. No recorte racial, nos chefiados por mulheres negras. No regional, no Norte e no Nordeste.

Silvia Aparecida Zimmermann, coordenadora da Rede Penssan, relaciona esse cenário às condições precárias de trabalho enfrentadas por essas populações, como baixos salários, informalidade e instabilidade de renda.

“A trabalhadora doméstica, por exemplo, tem muita descontinuidade na renda. Por isso, sua família fica mais sujeita à insegurança alimentar”, exemplifica.

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Elisabetta Recine, presidente do Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Consea), órgão consultivo da Presidência da República, acrescenta que as políticas públicas ainda têm dificuldade para alcançar e atender de forma contínua pessoas em situação de extrema vulnerabilidade.

Segundo ela, o problema nem sempre é a completa ausência de contato com o Estado, mas a falta de continuidade no atendimento e de integração entre os serviços públicos.

“Uma pessoa em situação de rua, por exemplo, chega a um abrigo, a um centro de saúde. Em algum lugar, ela chega. O problema é que ela chega e vai embora. Ninguém a acolhe no sentido de dizer: ‘Fique aqui, você não precisa só de um curativo'.”

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Políticas para não voltar atrás

Questionados sobre o que o próximo governo deve fazer para reduzir a vulnerabilidade alimentar, os especialistas são unânimes: o Brasil não pode retroceder nas políticas de combate à fome. Isso porque o país entrou e saiu do Mapa em um intervalo relativamente curto de tempo.

A primeira saída aconteceu em 2014, mas o Brasil voltou ao Mapa da Fome em 2022, durante o governo de Jair Bolsonaro (PL), em um contexto de avanço da pobreza, agravado pela pandemia de Covid-19 e por um enfraquecimento de políticas de apoio à produção e distribuição de alimentos.

Naquele ano, o relatório da ONU mostrou que 61,3 milhões de brasileiros enfrentavam insegurança alimentar. Além disso, 4,1% da população vivia em situação de subnutrição, o equivalente a 8,6 milhões de pessoas.

🔎 O indicador de subnutrição é conhecido como "Mapa da Fome" e mede a parcela de pessoas cujo consumo habitual de calorias é insuficiente para viver.

Três anos depois, em julho de 2025, o relatório mostrou que a parcela de brasileiros em situação de subnutrição ficou abaixo de 2,5%, confirmando a saída do Mapa da Fome.

Segundo especialistas, a melhora dos indicadores foi impulsionada por políticas de recuperação da renda e ampliação do acesso a alimentos. Entre elas, destacam-se a retomada dos reajustes do salário mínimo acima da inflação e a recuperação de programas de segurança alimentar, como o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA).

➡️ O PAA atua em duas frentes: o poder público compra alimentos de agricultores familiares, o que gera renda no campo, e os destina a pessoas em situação de vulnerabilidade social, escolas e hospitais.

Execução do Programa de Aquisição de Alimentos (PAA).

Arte/g1

Avançar no combate à insegurança alimentar exige garantir que as políticas públicas alcancem as populações mais vulneráveis e ampliar o acesso a alimentos saudáveis. Para isso, é preciso elevar a renda, apoiar a produção agrícola e assegurar recursos contínuos aos programas de segurança alimentar.

"Embora a Constituição brasileira garanta o direito à alimentação, as políticas de segurança alimentar no Brasil não são políticas de Estado, como são as de saúde e educação, em que uma percentagem do orçamento é garantida", destaca Graziano.

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O que é alimentação saudável para a ONU?

Para estimar quantas pessoas não conseguem pagar por uma alimentação saudável, a ONU compara o custo de uma cesta variada de alimentos com a renda que sobra após o pagamento de despesas básicas, como moradia, vestuário e transporte.

Essa cesta reúne 11 alimentos capazes de fornecer, juntos, cerca de 2.330 calorias diárias por pessoa. A ONU seleciona os produtos mais baratos disponíveis em cada país que atendam às recomendações de uma alimentação equilibrada.

Os alimentos são divididos em seis grupos: cereais, raízes e tubérculos; carnes, peixes, ovos e laticínios; leguminosas, castanhas e sementes; óleos e gorduras; frutas; e verduras e legumes.

O g1 perguntou à FAO quais alimentos foram usados no cálculo do custo de uma dieta saudável no Brasil, mas não recebeu resposta até a publicação desta reportagem.

E qual é a situação do Brasil?

O relatório da ONU aponta que o custo de uma alimentação saudável no país vem subindo ano a ano. Em 2025, chegou a 4,89 dólares internacionais por pessoa, por dia, ante 3,97 dólares internacionais em 2021.

Custo diário de uma alimentação saudável por pessoa.

Arte/g1

💵 O dólar internacional não é uma moeda que pode ser comprada ou trocada, mas uma medida usada para comparar o poder de compra entre países. O cálculo considera quantos reais são necessários para comprar, no Brasil, o equivalente ao que um dólar compra nos EUA. Como essa comparação leva em conta os preços dos produtos, e não a taxa de câmbio, não é possível converter o valor em reais pela cotação do dólar.

Já o número de pessoas que não consegue pagar por uma alimentação saudável atingiu o pico em 2021, no auge da pandemia, e vem recuando desde então. Apesar da queda, especialistas avaliam que o número ainda é elevado, pois representa cerca de um quinto da população.

Para Graziano, a valorização do salário mínimo nos últimos anos ainda não foi suficiente para garantir que as famílias tenham acesso a uma alimentação saudável.

“O custo de uma cesta básica saudável no Brasil hoje seria de R$ 240 a R$ 250 por mês por pessoa. Para uma família de quatro pessoas, isso representa cerca de R$ 1 mil, quase todo o salário mínimo (de R$ 1.621). Só pode pagar quem ganha mais que o mínimo”, diz Graziano.

Um agravante é que os reajustes salariais não conseguiram acompanhar a alta dos preços dos alimentos, o que reduziu o poder de compra da população. Segundo Graziano, é preciso considerar ainda que os preços dos alimentos frescos sobem mais rápido que dos ultraprocessados.

"A salsicha sobe menos do que o preço da alcatra, da picanha. Varia menos. Alimentos frescos e carnes dependem de transporte refrigerado e armazenagem especial, o que encarece o produto final", diz.

Segundo Zimmermann, da Rede Penssan, os ultraprocessados custam menos porque utilizam matérias-primas mais baratas e amplamente produzidas no Brasil, como açúcar, gorduras e derivados de soja.

“Se a gente pensar nos produtos pré-prontos, nas massas, nos biscoitos, chocolates, muitos têm soja na composição. Isso acontece porque a gente produz muita soja, então o custo fica muito mais barato que outros componentes", diz.

Variação da inflação dos alimentos consumidos em casa, em janeiro de cada ano, e reajustes reais do salário mínimo.

Arte/g1

Os desafios para reduzir preços

Zimmermann destaca que os preços das hortaliças oscilam mais, sobretudo quando comparados aos dos alimentos ultraprocessados.

Como esses cultivos têm ciclo curto de plantio e colheita, eventos climáticos, como secas e enchentes, podem destruir lavouras inteiras, reduzindo a oferta e encarecendo os produtos em poucos dias. Segundo ela, esse problema se agravou nos últimos anos com o aumento dos eventos climáticos extremos.

A especialista destaca que as oscilações do mercado internacional e as tensões geopolíticas também afetam a produção de hortaliças. Combustíveis e fertilizantes importados, por exemplo, estão sujeitos às variações de preços no exterior.

Nos últimos anos, conflitos no Oriente Médio e a guerra na Ucrânia encareceram esses insumos, elevando os custos de produção e transporte, que acabam repercutindo no preço dos alimentos.

Para Graziano, outro entrave é a distribuição desigual dos investimentos em pesquisa agropecuária no Brasil. Segundo ele, os recursos são “fortemente enviesados” para produtos de exportação, como soja, milho e carne bovina, enquanto frutas, verduras, legumes e alimentos básicos, como arroz e feijão, recebem menos atenção.

“A Embrapa Hortaliças, por exemplo, tem desenvolvido novas variedades, assim como a Embrapa Feijão. Mas esses avanços ainda são pequenos quando comparados ao progresso de outros segmentos, como o da soja", diz Graziano.

🌱 Na prática, a pesquisa pode ajudar a aumentar a produção de hortaliças com o desenvolvimento de variedades mais resistentes à seca e ao calor, além de técnicas de cultivo que reduzam as perdas provocadas por eventos climáticos extremos.

Diversidade e produção local

Elisabetta Recine, presidente do Consea, destaca que até mesmo polos de produção de frutas no Brasil são voltados ao mercado externo. É o caso do Vale do São Francisco (PE), que produz manga e uva principalmente para exportar à Europa e aos EUA.

"Esses polos dão preferência para a produção de frutas que os outros países estão querendo ao invés de olhar para a região e pensar: 'bom, quais são as frutas tradicionais daqui? As frutas nativas ou que têm uma relação histórica ou social com o local?'", diz.

"Não faz sentido, por exemplo, você produzir maçã em Santa Catarina, e levá-la para Manaus. Não quer dizer que as pessoas não têm direito de comer maçã. Quer dizer que a gente reduziu tanto a nossa diversidade que depende de circuitos longos. E isso impacta qualidade e preço do produto. Porque tem custo de transporte, de armazenagem e refrigeração."

Uma das saídas seria estimular a produção local e a venda direta ao consumidor, com medidas como a criação de feiras livres e outros pontos de venda, além da isenção de taxas para feirantes.

Outra ação importante é reforçar os investimentos na agricultura familiar, responsável por 60% da produção de hortaliças. Isso pode ser feito por meio da ampliação de programas já existentes, como o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA).

Desertos e pântanos alimentares

Encurtar o caminho entre a produção e o consumo também é importante para ampliar a oferta de alimentos frescos em desertos e pântanos alimentares no Brasil. Segundo Recine, essas barreiras de acesso ajudam a explicar a dificuldade de pagar por uma alimentação saudável.

Desertos alimentares são regiões onde há pouca ou nenhuma oferta de alimentos frescos e saudáveis, o que obriga moradores a percorrer longas distâncias para comprá-los.

Já nos pântanos alimentares, há mais estabelecimentos que vendem ultraprocessados, como refrigerantes, salgadinhos e biscoitos, do que locais que oferecem alimentos saudáveis.

Dados do Ministério do Desenvolvimento Social mostram que cerca de 25 milhões de brasileiros viviam em desertos alimentares entre 2023 e 2024. Desse total, 6,7 milhões eram de baixa renda ou viviam em situação de pobreza.

Já os pântanos alimentares abrigavam cerca de 15 milhões de pessoas, das quais aproximadamente 104 mil viviam em favelas e comunidades urbanas.

"As periferias urbanas são extremamente desabastecidas. Se você entra num mercadinho, você vai encontrar os produtos básicos secos — como arroz e feijão — porque eles têm um tempo de prateleira grande. De fresco, encontra uma banana, uma batata, uma cebola", ressalta.

Graziano afirma que, nas periferias das grandes cidades brasileiras, é fácil encontrar barracas de cachorro-quente, mas difícil comprar uma maçã.

"Somado a isso, a rotina de trabalho e a falta de tempo reduziram o preparo doméstico de alimentos frescos de cozimento longo — como feijão e mandioca —, empurrando as famílias para o consumo de ultraprocessado."

Zimmermann conta que, em maio de 2026, o Brasil propôs à Organização Mundial da Saúde (OMS) a criação de regras globais para a venda e a publicidade de ultraprocessados, com foco na proteção de crianças e adolescentes.

Na ocasião, o governo anunciou que buscaria apoio de outros países para levar a proposta à votação em 2027.

Integrar serviços para combater a fome

Para alcançar os 20,3 milhões de brasileiros que ainda enfrentam insegurança alimentar, Elisabetta Recine afirma que o principal desafio é fazer com que as políticas públicas cheguem, de fato, a essas pessoas.

Segundo ela, parte dessa população vive em situação de extrema vulnerabilidade e enfrenta dificuldades para acessar até mesmo o Bolsa Família.

Uma forma de alcançar esse grupo é aproveitar o contato que essas pessoas já têm com os serviços públicos. Recine explica que mesmo quem vive nas ruas passa, em algum momento, por uma unidade de saúde, uma cozinha solidária ou uma equipe de assistência social.

O desafio é fazer com que esse atendimento pontual seja o início de um acompanhamento contínuo. É para enfrentar esse problema que foi criado, por exemplo, o Protocolo Brasil Sem Fome, que está sendo implantado pelo Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social (MDS).

Enquanto o Plano Brasil Sem Fome reuniu políticas e estratégias que ajudaram a tirar o Brasil do Mapa da Fome, o protocolo representa uma segunda etapa, voltada a alcançar as pessoas em situação de maior vulnerabilidade.

Para isso, o governo identificou municípios com os piores indicadores de insegurança alimentar e nutricional e busca integrar, nesses territórios, três redes de atendimento: saúde, assistência social e segurança alimentar.

A ideia é evitar que o atendimento termine no primeiro serviço procurado. Se uma pessoa chega a uma unidade de saúde, por exemplo, ela pode ter outras necessidades identificadas e ser encaminhada para serviços de assistência social ou de segurança alimentar. O mesmo deve ocorrer quando a porta de entrada é uma cozinha solidária ou um serviço da assistência social.

Na prática, o objetivo é criar uma rede de proteção para que a pessoa não receba apenas um atendimento pontual, mas continue sendo acompanhada pelos serviços públicos e tenha acesso aos programas de que precisa.

Silvia Zimmermann acrescenta que essa integração deve incluir a busca ativa — ou seja, as equipes públicas precisam ir atrás das famílias, em vez de esperar que elas procurem ajuda.

Segundo ela, cruzar dados dos serviços de saúde, assistência social e segurança alimentar com os do Cadastro Único — base do governo que reúne informações sobre famílias de baixa renda e é usada para acessar diversos programas sociais — ajuda a localizar essas pessoas e entender o que dificulta seu acesso às políticas públicas.

O trabalho inclui orientar as famílias e, quando necessário, ajudá-las a se inscrever ou atualizar seus dados no cadastro. Assim, o contato com um serviço pode abrir caminho para uma rede de apoio capaz de enfrentar as diferentes causas da insegurança alimentar.

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