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Cacau abre mercados para o Brasil, mas chocolate pode voltar a ser artigo de luxo devido à crise climática

Semente de cacau dá origem ao chocolate. Reprodução/Redes sociais Do pé de cacau à barra de chocolate, o Brasil hoje domina toda a cadeia de produção e aposta cada vez mais na qualidade para conquistar mercados internacionais. E o cacau brasileiro carrega um diferencial que vai a...

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G1 - Economia Fonte Externa
30 de outubro de 2026 • 6 min de leitura
Cacau abre mercados para o Brasil, mas chocolate pode voltar a ser artigo de luxo devido à crise climática

Semente de cacau dá origem ao chocolate.

Reprodução/Redes sociais

Do pé de cacau à barra de chocolate, o Brasil hoje domina toda a cadeia de produção e aposta cada vez mais na qualidade para conquistar mercados internacionais. E o cacau brasileiro carrega um diferencial que vai além do sabor: ele ajuda a preservar a floresta.

Quem explica é André Luiz Carvalho Scampini, secretário-executivo da Associação dos Cacauicultores do Espírito Santo (ACAU). Segundo ele, uma das formas mais tradicionais de cultivo é a cabruca, sistema em que o fruto é plantado sob a cobertura da mata nativa.

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"O cacau é uma forma de preservar o ambiente. Por quê? Porque um sistema mais tradicional de plantio do cacau é a cabruca. É uma palavra indígena. Não tem tradução para outros idiomas e significa roça, cultivo, lavoura. A cabruca, para o cacau, é a gente plantar o cacau na mata nativa, dentro da própria mata."

Scampini lembra que a planta é originária da Amazônia e se desenvolve naturalmente à sombra das árvores. Segundo ele, esse modelo de cultivo está diretamente ligado à origem do fruto.

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"O cacau é um fruto da Amazônia brasileira. Ele não é sul-americano. Ele surgiu na Amazônia brasileira e, ao longo dos séculos, os indígenas foram levando as sementes pelo continente até chegar ao México. Quando os espanhóis chegaram ao México, conheceram o cacau através dos astecas. Mas a origem do cacau é a Amazônia brasileira. Tanto é que o cacau é primo do cupuaçu", explica.

Por ter surgido em ambiente florestal, o cacau se desenvolve melhor sob a proteção de árvores maiores. "Então ele está acostumado a ficar à sombra das grandes árvores. Ele está acostumado com a água", acrescenta.

O sistema conhecido como cabruca surgiu muito antes de existir legislação ambiental ou debates sobre sustentabilidade. No sul da Bahia e no Espírito Santo, produtores mantiveram áreas de Mata Atlântica em pé justamente para cultivar o cacau.

"Então ele foi plantado dentro da Mata Atlântica. Se hoje na Bahia e no Espírito Santo existe Mata Atlântica, agradeça ao cacau, porque o produtor escolheu. Ele decidiu manter a mata para plantar cacau", afirma Scampini.

O Espírito Santo também aposta na valorização da origem do produto. Linhares, no norte do estado, recebeu a primeira indicação geográfica brasileira para amêndoas de cacau.

"Nós temos a indicação geográfica, o Cacau Linhares. A indicação geográfica é a mesma coisa que champanhe, bordô, Borgonha ou Serra da Canastra. A nossa é a pioneira."

Segundo Scampini, as características naturais da região conferem qualidades únicas ao produto.

"Existe o terroir, que é o microclima, a qualidade da terra e a qualidade da água, que tornam a amêndoa de cacau produzida em Linhares diferente. Então ela é mais aromática, mais frutada, tem um sabor mais suave e uma maior concentração de manteiga de cacau."

A estratégia agora é levar essa qualidade para novos mercados.

"Então, assim, nós temos qualidade. E, se nós temos qualidade, vamos apresentar essa qualidade ao mundo. Vamos levar essa qualidade para a Europa também. Estamos de olho na Ásia, que é um mercado que está crescendo muito. Por isso estamos presentes aqui no Salão do Chocolate, para nos apresentar."

Salão do Chocolate em Paris

Produtores brasileiros, especialmente do Pará, da Bahia e do Espírito Santo, participam do Salão do Chocolate e da Patisserie, em Paris, entre os dias 28 de outubro e 1º de novembro. Chocolate em barra, em pasta e em calda: durante cinco dias, o público pode degustar diferentes produtos e acompanhar concursos que premiam as melhores receitas de confeitaria.

“Nesses eventos, vamos evoluindo a nossa produção de cacau, vai melhorando e conseguimos comercializar de forma mais rápida a nossa amêndoa e nossos subprodutos”, afirma Ivaldo de Santana, expositor do Pará.

Mas o setor também reivindica uma remuneração mais justa para os produtores. Em entrevista à RFI, Marco Lessa, coordenador da missão brasileira em Paris, defende uma melhor distribuição dos ganhos ao longo da cadeia produtiva.

“A luta maior é para que haja um preço justo, seja para o cacau brasileiro como o africano e do mundo inteiro. O produtor tem que ter uma participação maior que a matéria-prima, o protagonista é o produtor de cacau”, diz.

Segundo ele, "não faz sentido que de uma barra de chocolate, só 7% do preço dela é do produtor". “É importante que os consumidores saibam, ao comer, e ao comprar, o impacto disso na vida das pessoas”, completa.

Cacau pode virar artigo de luxo

O futuro do setor, porém, traz desafios. As mudanças climáticas já afetam regiões produtoras e podem transformar novamente o chocolate em um produto de luxo. É o que alerta Elis Joinville, da Cacau Brasil.

"O chocolate, historicamente, era um produto de luxo. Até os anos 40 e 50. Com o passar do tempo, outras maneiras de fazer chocolate foram surgindo para popularizar o produto."

Mas esse cenário pode mudar.

"Com a mudança climática e o aumento das temperaturas, as culturas de cacau podem ser realmente afetadas. Na verdade, já estão sendo afetadas. E o preço já está subindo."

Segundo ela, algumas variedades cultivadas há mais de dois séculos estão ameaçadas. "Há algumas culturas de cacau que existem há mais de 200 anos e podem desaparecer por causa desse aumento das temperaturas", alerta.

A consequência pode ser sentida diretamente pelo consumidor. "Isso pode fazer com que, um dia, o chocolate volte a ser um produto de luxo", afirma Joinville.

Chocolate brasileiro feito com 'amor'

E o que os franceses acharam do chocolate brasileiro? A reportagem conversou com visitantes do salão. "É excelente. Gostei dos diferentes chocolates, especialmente o de 70%. É suave, encorpado, com notas que remetem à floresta. Não há amargor. É extremamente suave na boca. Dá para sentir todo o amor dedicado a essa produção, desde o início até a criação do chocolate", diz Nathalie, uma visitante ouvida pela RFI.

Ela também destacou a importância da sustentabilidade.

"É claro que os chocolates feitos por franceses são excelentes, mas eles não podem fazer milagres se a produção do chocolate em si não for da melhor qualidade. E, para isso, é preciso ética. É necessário que a produção ocorra em condições ambientalmente aceitáveis", acrescenta. 

Para ela, a agrofloresta representa o caminho mais promissor para o futuro da produção. "Hoje em dia, a agrofloresta é a solução ideal", aponta. 

Do coração da Amazônia e da Mata Atlântica para as vitrines e confeitarias da Europa, o chocolate brasileiro aposta na qualidade, na preservação ambiental e na origem para conquistar consumidores em todo o mundo.

Conteúdo importado automaticamente via RSS de G1 - Economia.

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